terça-feira, 1 de maio de 2018

A coisa


A coisa ao coisar coisa,
Porque coisando é que se coisa
A coisa que se quer.

Se não se coisasse tanto a coisa,
O pouco coisado seria o bastante
Pra se coisar. Bastando
À coisa o suficiente.

Porque, se a cada coisa basta a coisa
Presente na sua coisa,
Que outra coisa se poderia querer
Além da coisa que se tem?

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O whatsapp e a imbecilização humana

                                                                                      Por Lúcio Torres

  
Que a internet e suas diversas plataformas vieram para ficar, não restam dúvidas. Afinal, quem ousa imaginar o mundo sem as facilidades, sobretudo comunicativas, da pós-modernidade? Com o seu advento, nas últimas décadas, e sua constante progressão quanto ao número crescente de usuários, é mais que perceptível a sua abrangência e influência decisivas nas relações humanas contemporâneas.
A globalização, nas suas mais variadas formas e estágios, diminuiu as distâncias, extinguiu as fronteiras, aumentou a velocidade da informação e a universalizou, embora os efeitos produzidos, de certa forma, parecem ter levado a um caminho inverso quando observamos, paradoxalmente, o distanciamento das pessoas e, concomitantemente, a perda de tempo com questiúnculas supérfluas úteis em nos roubar o tempo e nos desviar a atenção do essencial, simples e primitivo da vida.
Importa assinalarmos o altíssimo grau de dependência que a sociedade hodierna conseguiu agregar, a ponto de ficar refém – e isso não é um exagero. Experimente ficar um dia inteiro sem o celular – da rede mundial. Constata-se sua influência no comportamento e relações interindivíduos, tendo como resultado o constante e progressivo distanciamento entre os atores, por mais contraditório, repito, que pareça.   
Não é difícil, ao contrário, averiguar-se que, embora presentes as pessoas são distantes.  Isso em todas as esferas ou grupos sociais, quer seja na família, na escola, na rua, no trabalho, na repartição pública – ou privada – , no lazer, enfim, em todos os locais possíveis nos quais haja uma rede wi-fi, lá está a internet e o celular, amigos inseparáveis, como um obstáculo onipresente à nossa primária forma de interação.
Ao se caminhar nas ruas, cruzamos com zumbis errantes, daqueles que aparecem no cinema. Em toda parte, pra onde quer que a vista aponte, percebe-se uma massa alheia ao que acontece ao derredor, concentrada no aparelhinho celular, contribuindo para o surgimento de uma geração de pessoas de “pescoço caído” – os fisioterapeutas que o digam. Isto é por demais sério, porém não me parece ser tratado com a seriedade merecida por quem de direito.
Como tudo que o homem bota a mão – desde os primórdios bíblicos – é afetado intrinsecamente pela sua capacidade e vocação de estragar o que é bom, não acontece diferente com a internet e suas derivações aplicativas, entre elas a mais popular em nosso meio, o famigerado whattsapp e sua ferocidade em alastrar boatos, atrofiar mentes e imbecilizar pessoas.
Falando dessa forma, parece que não há nada que se aproveite nesta plataforma. Não é bem assim. Como outras invenções não menos importantes, o problema não está nelas em si, mas em nós e em todos os nossos defeitos que se perpetuam ad infinitum por séculos e séculos sem fim – me perdoe a redundância. Como dito, o homem tem uma capacidade inata de deturpar, piorar e corromper o que é bom. Eis a questão! Parece-me que o aplicativo nada mais faz do que desnudar realmente o homem como ele se apresenta: falho. E aqui não há barreiras de ordem cultural, social, política, ideológica, ou o que quer que seja que nos faça escapar de nossa própria insensatez. Todos nos transformamos num só idiota.
Neste ponto, cabe uma análise mais apurada.  Mesmo pessoas com formação e grau de instrução diferenciados parecem sucumbir diante da bestialidade a que são submetidos e se deixam levar por ela, acabando por se tornarem sujeitos desprovidos de senso crítico, embarcando num status quo característico do senso comum. Tal observação corrobora para uma falha crassa na educação a que foram submetidos, educação esta que não se restringe unicamente à oportunidade de frequentar “bons” colégios. Estes indivíduos, de quem se esperava pelo menos um fio de sapiência, nos fazem refletir e indagar sobre em qual estágio o processo educativo não se realizou – sobre isto muito teríamos que discorrer: as faltas da educação, da escola e por que não dizer, da família.
Particularmente me chama a atenção no uso da ferramenta a postagem de notícias sem verificação de autenticidade. Não se deve esquecer que, dado às características da rede, a velocidade da informação é impressionante, tanto quanto a ânsia pelo “furo” de reportagem – sim, pois na era da internet todos somos jornalistas, repórteres, enfim, imprensa. Porém, a fonte quase nunca é checada, como o fazem os jornalistas de verdade, pois isso dá trabalho e leva tempo, o que não é interessante no que concerne à rede mundial – a “perda de tempo”. Assim, lá se vai uma notícia falsa se alastrando como fogo posto num rastilho de pólvora. Essa armadilha é democrática. Ela atinge a maioria dos usuários, independentemente do grau de instrução e já implicou problemas e aborrecimentos para pessoas que sofreram processos caluniosos e difamatórios. Motivo pelo qual, dado a esta característica do aplicativo, ou melhor, de quem o usa, não é prudente usá-lo como meio de se informar.
Não bastasse tudo isso, cabe ainda somar os inúmeros mal-entendidos entre os interlocutores, próprios da dificuldade natural de se escrever o que se está falando, haja vista as diferenças entre a língua escrita e falada, o que tem levado – não raramente – a discussões e/ou desavenças entre “amigos”. Sem falar nas duas barras azuis que “entregam” quem viu a mensagem, a qual, se não respondida a contento e no tempo esperado, dá margem a interpretações, nem sempre corretas – pelo menos não para quem as deduz – do emitente.
Problemas de ordem psicológica também são afloradas e traduzidos pela ânsia de se ser correspondido e intensificados por uma autoestima baixa e pela necessidade de aceitação no grupo social. Desta forma, são desnudados comportamentos, nem sempre saudáveis, de uma sociedade que, por sua vez, mostra-se doente sob os mais distintos pontos de vista.
De novo, parece não ser a ferramenta perversa em si mesmo, mas aqueles que carreiam por meio dela toda sorte de vícios, os quais, outrora, eram concretizados por outros recursos, mais lentos, menos abrangentes e menos efetivos na disseminação de informação, como a velha fofoca ao pé do ouvido em grupos sociais restritos, por exemplo.
Carecemos, portanto, de exercer em plenitude os tão fora de moda valores éticos. “Tudo posso, mas nem tudo me convém”, parodiando Saulo de Tarso. Os sujeitos necessitam tomar para si a responsabilidade da saudável convivência e respeito pelo outro. Não é porque tenho à disposição um instrumento que me dá voz ativa e capacidade de ser ouvido, que posso usá-lo indistintamente ao meu bel prazer. Este é um problema ainda a ser equalizado dentro da rede mundial e depende de fatores outros aqui citados, como a educação. No entanto, tudo parece estar contaminado por algo bem maior. Neste sentido, algumas perguntas poderiam ajudar no seu discernimento: Eu postaria este ou aquele conteúdo em um outdoor? A minha postagem contribui, de alguma forma, para a edificação de quem as lê? Eu gostaria de receber uma mensagem igual? – esta, propriamente pode não ser tão efetiva. Perguntas assim, de certo, ajudariam muito na melhoria e na seletividade do conteúdo que se vê por aí, estampado nas mensagens de texto ou imagens e vídeos que empanturram a memória do celular com a superficialidade humana.
Mas não tomem como por demais pessimistas as assertivas acima, visto que ainda há esperanças. Apesar de todos os malefícios, vislumbra-se uma luz no final do túnel cada vez que a plataforma é usada de forma responsável – como deveria ser sempre –, não fosse o homem este ser intrínseca e extrinsecamente complexo demais para só realizar coisas boas.







quarta-feira, 25 de maio de 2016

ALGUÉM


Não me diga o quão triste te parece ser este alguém que te apresenta como quem te ama, mas, ao invés de tudo se contradiz nas imperfeições demonstradas.

Porque, mais que ninguém, eu sei o que ele sente e quando ri e quando chora e quando quer dizer o que não diz e sofre por dentro mais do que por fora dessa imprecisão que o aflige.

Mas agora permanece quieto, mais calado do que ainda pode ser alguém que chora a falta do que falta ao seu ânimo mais contrito da profunda angústia que o atormenta.

terça-feira, 24 de maio de 2016

ALGUNS HAICAIS

O exercício de expressão na sutileza de três versos


O vinho é o bálsamo
Derramado na ferida
Que alivia a dor


Da lua o clarão
A iluminar o meu quarto
Minha solidão


Na molhada relva
O sereno de uma noite
Escorre na terra


A lua cheia
Ilumina o quarto à espera
Dos namorados


Cold and silent night
I look for the stars, but they ...
They were already lie


Acima das nuvens
A imensidão e o espaço
Nos tornam pequenos


O pobre poeta
Pensa que é interessante!
Que nada. Piada!


Sopé da montanha
Vale na rocha escupido
Sob o céu nublado


O amor é brisa
Do fogo da existência
Alimento e chama


Festa de criança
É não se preocupar
Viver o momento


Dunas, céu azul
Brisa, mar, vegetação
Natureza viva


À brisa marinha
Um casal de bem-te-vis
Canta ao entardecer


Num dia nublado
A garça percorre a relva
Tingida de verde

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

ANAIS DO BOCÃO: ÓCIO E PÉROLAS



       Porque o ócio é capaz de grandes preciosidades que somente os grandes são capazes de produzi-las. Tanto que no antigo Império os mais importantes intelectuais – a exemplo de Cícero e Sêneca – de Roma o tinham arraigado no seu íntimo. Não à toa nós, remanescentes do ginásio – novinho do tempo de ginásio! – do grande Colégio Sete de Setembro - àquele que só se ama uma vez, a primeira e para sempre – também produzimos durante o corrente ano inúmeras pérolas, não menos dignas de registro – nem de modéstia.
       Torna-se efetivamente pertinente elencá-las dado o crescimento da família do Bocão, que aumenta a cada dia, visto que os novatos poderão ficar um pouco perdidos diante da enxurrada de mensagens e atualizações que parecem surgir à velocidade da luz, principalmente em se tratando de conversas nas quais um dos interlocutores é a nossa calada amiga Sandra e sua constante falta de assunto.
       Assim foi que no último ano passeamos nossas intrépidas línguas nesta magnífica plataforma tecnológica, mas, ao mesmo tempo tão cruel em matéria de mal-entendidos e melindres, a qual não perdoa o mínimo deslize dos seus componentes, chamada WattsApp – intimamente conhecida por zap zap por nós Tupiniquins.
      Como esquecer, por exemplo, de nossa amiga Sandra Tartá – olha ela de novo! – e sua perspicácia datação dos Livros Sagrados. Pois bem, numa das citações da Bíblia – como o faz de costume. Só perdendo para Edsão (perdoem-me a grafia) – a nossa amiga foi longe ao afirmar que os escritos sagrados tinham “cinco milhões de anos” – acho que nesse tempo só tinha dinossauros na terra. Espero não estar enganado para que eu não seja obrigado a me colocar também nesse relato. Não que eu não o esteja, como veremos a seguir.
     Parodiando Geraldo Vandré, pra não dizer que não falei de mim, certa vez – como acredito que muitos de vocês fazem diante do grande número de mensagens que vemos na telinha após um pequeno período sem checar o celular – comecei a olhar e ouvir as mensagens de trás pra frente e salteadas – achei que assim daria para contextualizá-las – e deduzi erroneamente que era o aniversário de Alexandre, visto que todos o parabenizavam. Então gravei um áudio no qual também o parabenizava pelo seu dia e desejava felicidades. Pouco depois – o magnífico feedback à velocidade da luz – Wheidy Maria – é assim que vou chamá-la de agora em diante – entrou com um áudio a me alertar do meu engano, pois não se tratava do aniversário de Alexandre. Eu, prontamente e inocentemente gravei outro áudio no qual eu retirava tudo o que havia dito. Isso mesmo! Eu retirei tudo o que disse! – isso incluía, naturalmente, os desejos de felicidades, tão bem lembrado pelo áudio da amiga Wheidy Maria.
      Nossa amiga Ilka também esteve presente no que chamamos carinhosamente de “Os Anais do Bocão” do qual eu sou – como vocês puderam perceber – o relator e anotador contumaz. Perdoe-me o trocadilho, mas não havia melhor momento pra se falar dos anais do que este ao lembrar da eloquente firmeza verbalizada por Ilka ao protestar que nós não vivíamos “no furico do mundo”.
      Vocês sabiam que Alexandre toma “Navagina” quando está com dor de cabeça? Como sou uma pessoa compreensiva resolvi não colocar esse episódio nos anais – olha ele aí de novo! –, pois o grande tempo sem falar português com freqüência – agora ele tem a nós para praticar – o deixou, como ele mesmo nos disse, “enferrujado” no uso da língua materna e capaz de cometer essas impropriedades.
      Convém também lembramos as intermináveis conferências de Sandra, Mônica, Cynthia e Wheidy a respeito de como rejuvenescer – como se isso fosse totalmente possível – nas quais eram discutidos os mais revolucionários métodos para tal, como ioga facial antirrugas, cremes variados, além de receitas caseiras que não sei se foram postas em prática. Se bem que Sandra enveredou mesmo pelo caminho radical da cirurgia, ao invés de esperar pelos resultados das citadas conferências – mas não foi a doutora Rola, indicada por Alexandre, que operou nossa amiga, pois ela não tinha agenda, infelizmente.
      Como toda família, no bocão também há algumas discussões devido a divergência de opiniões – isso acontece nas melhores famílias – e choque de temperamentos. Nada que não termine bem com um abraço virtual e fraterno. Aliás, o tempo passou e – ainda bem – nos conservou a essência de nossas personalidades. Isto foi percebido nestes acontecimentos os quais nos fazem remontar ao tempo da escola. Cada qual permaneceu, na maioria dos casos, com sua identidade – que bom!
      Mas o que nos marcou profundamente foi mesmo o encontro que realizamos com alguns membros quando da vinda de Wheidy e Luca. Passamos uma tarde bastante significativa na qual tivemos a oportunidade, depois de tantos anos, de nos rever e aos nossos cônjuges meeiros – segundo Cynthia – e filhos. Foi como que uma renovação, um revigoramento, agora acrescido de novos membros a dar continuidade no que outrora fomos e somos – amigos, família. As novas gerações se encontraram e começaram a criar vínculos. Foi assim no encontro entre os filhos de Murilo, Wheidy e Ilka, que jogavam futebol nos jardins da chácara de Sandra aos olhares contemplativos dos pais e amigos. Lembramos-nos de acontecimentos que parecíamos não lembrar. Até ficamos sabendo de traumas psicológicos passíveis de reparação indenizatória a ser impetrada contra Murilo por Sandra devido a Buylling – no nosso tempo nem existia isso – e constrangimento ao zombar da roupa rasgada e da suposta indignidade de pertencer à selecionada casta dos alunos do Sete de Setembro da impetrante. Depois deste curto momento, a despedida na tapiocaria significou tanto que fez Murilo derramar lágrimas, que segundo ele, não derramava desde a morte de sua avó. Foi uma boa noite.
      Assim, neste breve resumo espero ter conseguido transmitir as boas vindas aos recém-chegados e que eles possam ter uma vaga ideia do que temos feito e debatido e acontecido aqui, na continuidade do primitivo bocão mimeografado no qual a criatividade de jovens amigos posta no papel atravessou o tempo e os fez o reencontro perceber o quão boa é a vida e as amizades que se fazem no seu decorrer.
    


sexta-feira, 4 de abril de 2014

SEVENTEEN SYLLABLES

Ebook about haiku, a short poem originally Japanese.
Translated by the original in Portuguese "DEZESSETE SÍLABAS"

HAIKU, an exercise of conciseness and objectivity

Haicai, or Haiku, is a short poem originally Japanese that has like theme, generally, the Nature. It contain almost always a word that give us a clue about the season which the scene was watched (Kigo, in Japanese). Concision and objectivity are its main characteristics. In only three verses all poets’ feelings are summarized like a recorded photography on the paper.

"Sky, naked sunrise
It’s the veil that cover all land
And shows us all the wonder"

"Rosebush’s flower
Butterfly’s repose
Rose’s petal"